Deu Branco

Uma situação hipotética: a pessoa tem uma apresentação oral e fica tão tensa que parece que esqueceu tudo o que tinha a dizer: deu branco. Não duvide, este é o tipo de situação que mais atemoriza aos que se veem convocados a falar em público.

 

O que de fato acontece?

 

O cérebro tem um mecanismo bastante refinado. Alguns sinais do corpo, desencadeados pelo medo, exigem atitude de proteção, é como se houvesse um sistema resfriador das emoções, uma pausa – longa – do raciocínio para recalcular a rota.

Para justificar o medo da exposição ao ridículo, falar para um público, pequeno ou grande, representa o perigo e, com mais frequência do que se imagina, são relatadas experiências sobre a sensação de total vulnerabilidade com esquecimento agudo das ideias.

 

O que fazer?

 

Não há uma receita com doses precisas disso ou daquilo. Mas, há aspectos que podem ser analisados individualmente e trabalhados em favor de cada um. Não se enfrenta problemas desconhecendo causas e efeitos.

 

1)Tomar consciência do corpo é um importante recurso. Entender as reações físicas como respostas psíquicas pode ajudar a intervir com mais agilidade sobre o que é indesejado.

Além disso, respeitar os limites do corpo é imprescindível, por isso, a atenção à alimentação, ao sono, às atividades físicas, ao lazer e à interação social são fatores inegociáveis para o bom aproveitamento cognitivo.

 

2) Geralmente, somos convidados a falar sobre nós, sobre o que estudamos ou nossa área de atuação, o que indica que há conhecimento sobre o assunto. Eu digo “geralmente” porque não está descartado que sejamos convidados a emitir uma opinião ou mesmo episódios em que temos que improvisar. Em qualquer desses casos, a palavra de ordem é confiança. Ninguém se forma da noite para o dia, é preciso acreditar no tempo dedicado ao aprendizado e no preparo para assumir posições e objetivos.

A insegurança mina o pensamento e é a principal responsável pela disfluência de raciocínio, porque faz com que se perca a autoridade do discurso.

*autoridade no sentido de propriedade do conhecimento a ser transmitido.

 

3) Outro ponto de grande relevância é a diversidade de pontos de vistas. Defender uma ideia não é, necessariamente, invalidar outras. Conhecer linhas de pensamento diferentes ajuda a construir posicionamentos consistentes e a falar com autenticidade.

Isto sem dizer que a criatividade é reconhecidamente uma competência que se beneficia da ampla percepção de mundo, do reconhecimento dos problemas e da disponibilidade em buscar soluções.

Ou seja, observar e ouvir estão no topo da lista das habilidades que permitem ao cérebro manter-se ativo, independente das circunstancias.

 

4) As atividades desafiadoras são excelentes exercícios do raciocínio, reciclam pensamentos, instigam a buscar novas alternativas e dão celeridade à elaboração das respostas. Desafios, desde os mais simples e lúdicos até os grandes dilemas reais e práticos, ajudam a melhorar o raciocínio e driblar as reações do medo, à medida que são superados.

Interessante notar que os desafios impulsionam por meio do stress, sair da situação estressante é um estímulo para cérebro. Antagonicamente, os momentos de relaxamento, como um banho ou uma caminhada, contribuem para a organização dos pensamentos, para a reflexão e elaboração daquilo que queremos dizer.

Parece contraditório, mas ambos são mandatórios para o fortalecimento da autoconfiança, tão necessária para as apresentações.

5) Por fim, os erros fazem parte do aprendizado. Somente com a prática se conhecem as falhas e, a partir da correção delas aprimora-se o desempenho e atinge-se melhores resultados. É um processo contínuo.

 

De tudo que está dito, reforça-se que o cérebro é multifuncional e para ser aproveitado em todo seu potencial, precisa ser explorado, isto é, posto à prova, experimentando toda a paleta de cores, inclusive o branco.